Morre Raul Jungmann, ex-ministro da Defesa e da Segurança Pública, aos 73 anos
Quem esperava que Raul Jungmann ainda tivesse força para enfrentar mais um desafio na vida pública foi surpreendido pela notícia do seu falecimento. O ex-ministro da Defesa e da Segurança Pública morreu em Brasília no domingo, 18 de janeiro de 2026, aos 73 anos, vítima de câncer no pâncreas. Internado desde sábado no Hospital DF Star, ele não resistiu às complicações da doença que o perseguia desde 2022. O velório, restrito a familiares e amigos próximos, aconteceu na segunda-feira, 19 de janeiro, no Cemitério Campo da Esperança, na Asa Sul. A cremação seguiu o mesmo padrão: íntima, silenciosa, como ele mesmo pediu.
Um político de quatro ministérios e uma vida de desafios
Raul Jungmann não foi apenas um nome na história recente da política brasileira — foi um ator que apareceu nos momentos mais críticos. Nasceu em Recife, em 3 de abril de 1952, e construiu uma trajetória que abarcou legislativo, executivo e gestão pública técnica. Foi ministro do Desenvolvimento Agrário sob Fernando Henrique Cardoso (1999-2002), depois ministro da Defesa em Michel Temer (2016-2018), e, em 2018, tornou-se o primeiro ministro da Segurança Pública do Brasil — um cargo criado para dar mais peso às ações de combate à violência. Nenhum outro político da República teve esse recorde de ministérios em três governos distintos.Da CPI dos Sanguessugas à defesa do STF
Como deputado federal por Pernambuco, em três legislaturas (2003-2007, 2007-2011 e 2015-2019), Jungmann se destacou por não se esconder atrás de discursos vazios. Foi vice-presidente da CPI dos Sanguessugas, que expôs um esquema de corrupção em contratos de ambulâncias que somava R$ 33 milhões. Foi também um dos líderes da Frente Brasil Sem Armas, que liderou a campanha contra o comércio de armas no referendo de 2005 — e venceu. Mas o que mais marcou sua atuação foi sua postura na oposição a Dilma Rousseff: foi um dos principais articuladores do impeachment, que resultou na chegada de Temer ao Planalto.Na mineração, o último grande legado
Após sair da política partidária em 2019, Jungmann não se aposentou — mudou de campo. Em 2022, assumiu a presidência do Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM). E foi ali, entre reuniões com CEOs de mineração e seminários em São Paulo, que ele se reinventou. Liderou uma agenda ESG (Ambiental, Social e Governança) que transformou o IBRAM de um órgão burocrático em um centro de referência internacional. Em junho de 2025, ao lado do ministro Ricardo Lewandowski, alertou: “O Brasil tem os minerais críticos que o mundo precisa — mas não tem instituições fortes para garantir que eles sejam extraídos com ética.”Um homem acusado — e absolvido
Nem tudo foi luz. Em 2004, foi investigado por suspeitas de fraude em contratos de publicidade no Ministério do Desenvolvimento Agrário. O inquérito durou anos, gerou manchetes, e, em 2009, foi arquivado pela Justiça Federal por falta de provas. Ele sempre negou qualquer irregularidade. “Não fui condenado porque não fiz nada errado”, disse em entrevista em 2016. E, mesmo com a sombra da acusação, nunca deixou de atuar. Pelo contrário: sua integridade foi reforçada por gestos como o de integrar, em 2025, um manifesto de nove ex-ministros da Justiça em defesa do Supremo Tribunal Federal — depois que Donald Trump cassou vistos de magistrados brasileiros.
O que deixou, e o que ainda falta
O lamento veio de todos os lados. Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados, escreveu: “Ele construía pontes onde outros só viam muros.” O ministro Alexandre de Moraes, em nome do STF, lembrou sua “capacidade rara de unir pessoas em torno de princípios, não de interesses.” O IBRAM, em nota oficial, afirmou que Jungmann “deixou um legado de diálogo e ética que transcende a mineração.” Mas o que mais pesa, entre os que o conheciam, é o silêncio que ele deixou. O tipo de político que não gritava, mas ouvia. Que não prometia revoluções, mas construía soluções. Que, mesmo doente, ainda discursava em universidades sobre o futuro do país.Quem era Raul Jungmann? Um brasileiro que fez política com alma
Ele deixou dois filhos e uma neta. Não deixou fortuna. Deixou ideias. Deixou relatórios técnicos que vão orientar políticas públicas por anos. Deixou a memória de um homem que, mesmo quando o país parecia dividido, insistia em falar com todos — até com os que o criticavam.Frequently Asked Questions
Qual foi o impacto de Raul Jungmann na política de segurança pública?
Como primeiro ministro da Segurança Pública do Brasil, Jungmann coordenou operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) em estados como Rio de Janeiro e Bahia, usando as Forças Armadas para conter violência. Sua abordagem foi técnica, não militarista — focada em inteligência e coordenação entre polícias e exército. Essa estrutura ainda é referência em debates sobre segurança nacional.
Por que ele foi tão importante para o setor mineral?
Antes de Jungmann, o IBRAM era visto como um órgão burocrático. Ele transformou a instituição em um polo de inovação, alinhando a mineração brasileira aos padrões ESG globais. Sua pressão por transparência e sustentabilidade atraiu investimentos estrangeiros e fortaleceu a posição do Brasil como fornecedor de minérios críticos para baterias e tecnologia limpa — algo essencial na transição energética.
Como foi sua relação com o Supremo Tribunal Federal?
Jungmann era crítico de decisões judiciais, mas nunca questionou a instituição. Em 2025, ao lado de outros ex-ministros da Justiça, assinou um manifesto público em defesa do STF após o ex-presidente Donald Trump cassar vistos de magistrados. Para ele, a independência do Judiciário era não negociável — mesmo quando o tribunal o contrariava.
O que aconteceu com as acusações de corrupção contra ele?
Foi investigado por supostas irregularidades em contratos de publicidade no Ministério do Desenvolvimento Agrário, totalizando R$ 33 milhões. O inquérito foi arquivado em 2009 pela Justiça Federal por falta de provas concretas. Jungmann sempre afirmou ser vítima de perseguição política. Nenhum processo criminal foi instaurado, e ele nunca foi condenado.